Semiárido mineiro entra na rota do chocolate
Estudos realizados pela Unimontes mostram boas perspectivas da cultura na região
O cultivo do cacau adaptado ao clima semiárido do Norte de Minas, implementado a partir de pesquisa desenvolvida no campus da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), em Janaúba, alcança um passo importante. Estão sendo realizados os primeiros testes com o cacau produzido na região. Foi fabricado o primeiro chocolate feito exclusivamente com o cacau cultivado na Fazenda Experimental do campus da Unimontes no município — variedade CCN 51.
Os testes sobre a produção de chocolate são desenvolvidos no Laboratório de Tecnologia de Produtos de Origem Vegetal (TPOV) do campus de Janaúba. As atividades são coordenadas pela professora e pesquisadora Maristella Martinelli, vinculada ao Departamento de Ciências Agrárias e doutora em Ciências de Alimentos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Ela explica que também foram realizados testes para a produção de chocolate com cacau adquirido junto a um agricultor de Janaúba, com o objetivo de avaliar a qualidade sensorial e tecnológica do produto final. “Os testes são importantes para termos um perfil inicial de qualidade dos chocolates”, afirma a professora Maristella Martinelli.
A pesquisadora informa que os estudos vão prosseguir, visando ao aprimoramento da produção. Nesse sentido, as próximas etapas serão essenciais para a elaboração de um chocolate de qualidade. “Para isso, testaremos novas formulações para a produção de chocolate ao leite e a utilização de novos genótipos, pois sabemos que a composição química varia em função da genética”, anuncia.
A professora destaca que serão realizadas avaliações físico-químicas e sensoriais nos chocolates, que permitirão verificar aspectos como teor de gordura e de compostos fenólicos, além das características de aroma, sabor e textura, que impactam diretamente a satisfação do consumidor. “Os resultados serão fundamentais para validar o potencial do cacau norte-mineiro na produção de chocolate e orientar possíveis ajustes no processo produtivo”, assegura.
Importância do Laboratório de Tecnologia de Produtos de Origem Vegetal
Maristella Martinelli ressalta a importância do TPOV do campus de Janaúba, cujos equipamentos foram adquiridos com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). O laboratório é um espaço voltado ao ensino, à pesquisa e à extensão, onde são desenvolvidas atividades práticas com matérias-primas de origem vegetal.
O TPOV atende estudantes dos cursos de Agronomia, Zootecnia, Tecnologia em Gestão do Agronegócio e do curso técnico em Fruticultura, que processam produtos como polpas, doces, geleias e frutas desidratadas, contribuindo para a formação prática e tecnológica.
Além das aulas, o laboratório é utilizado para o desenvolvimento de pesquisas relacionadas à qualidade das matérias-primas e dos produtos processados, incluindo avaliações físico-químicas e sensoriais. “Desenvolvemos, por exemplo, uma polpa de pitaya vermelha microencapsulada e a adicionamos a iogurtes como alternativa de corante natural, projeto fomentado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)”, destaca a pesquisadora, citando também a relevância dos estudos sobre a composição química do cacau cultivado no Norte de Minas.
“Essas avaliações são importantes porque a literatura demonstra que o conteúdo de polifenóis — substâncias que conferem adstringência ao cacau e ao chocolate — depende, entre outros fatores, da variedade genética e das condições de crescimento da planta”, observa.
Perspectivas do cacau no Norte de Minas
Segundo Maristella Martinelli, as pesquisas e testes realizados no campus de Janaúba têm como foco a composição química das sementes de três clones de cacaueiros cultivados na fazenda experimental da Unimontes, sob condições de déficit hídrico controlado. O projeto sobre o cultivo do cacau no semiárido é coordenado pelo professor Victor Maia, que desenvolve o estudo há vários anos.
“As análises incluem a avaliação da composição de compostos fenólicos e de compostos voláteis, que impactam diretamente o aroma e o sabor dos chocolates e são fundamentais para determinar o potencial antioxidante, o perfil sensorial e a qualidade tecnológica do cacau produzido no semiárido mineiro”, afirma.
A pesquisadora enfatiza que os estudos apontam boas perspectivas para o cultivo do cacau na região. “As perspectivas são bastante promissoras. Os resultados iniciais indicam que o Norte de Minas apresenta potencial favorável para o desenvolvimento da cultura”, conclui.
Ela acrescenta que as pesquisas contribuem para compreender o comportamento de diferentes clones nas condições do semiárido e geram subsídios científicos para o aprimoramento das técnicas de cultivo, fermentação e processamento. “Esses avanços fortalecem a perspectiva de produção de chocolates ‘bean to bar’, com identidade regional e qualidade diferenciada”, finaliza. (Ascom/Unimontes)
