EU VOU TE ENCONTRAR

 EU VOU TE ENCONTRAR

Eu Vou Te Encontrar é o retrato perfeito do thriller moderno da Netflix: uma série feita para ser vista enquanto você responde mensagem, olha o placar do jogo, pede comida e, ainda assim, não se perde completamente. Isso não é exatamente elogio. Mas também não chega a ser ofensa. É quase uma categoria própria de entretenimento: o “Harlan Coben de sofá”, aquele suspense em que toda pessoa tem um segredo, toda porta esconde uma pista e todo episódio termina com alguém olhando para o nada como se tivesse acabado de perceber que foi enganado pelo próprio CPF.

A premissa é boa. David Burroughs (Sam Worthington) está preso há anos, condenado pelo assassinato do filho. Ele insiste que é inocente, a família não acredita, a Justiça já carimbou o caso e o mundo parece ter seguido em frente. Até que Rachel, irmã da ex-esposa dele e ex-jornalista com um talento peculiar para tropeçar em conspirações, encontra uma foto em rede social: ao fundo, há um garoto que parece ser exatamente o filho que David supostamente matou.

Pronto. É a partir daí que a série te pega pela gola e diz: “aceite essa coincidência absurda porque temos oito episódios para preencher”. E você aceita. Porque, convenhamos, não existe nada mais eficiente para arrancar alguém de uma prisão do que a possibilidade de o próprio filho estar vivo — mesmo quando exames anteriores já tinham apontado o contrário e o roteiro precisa fazer malabarismo para sustentar a ideia por mais de uma cena.

Sam Worthington funciona bem no papel porque tem uma seriedade meio pétrea que combina com personagens que carregam trauma, culpa e cara de quem não dorme desde 2014. David é um homem movido por uma convicção simples: se existe uma mínima chance, ele vai atrás. O problema é que o roteiro não dá a ele tanta personalidade quanto imagina. Em teoria, ele foi professor de Direito. Em teoria, tinha crises noturnas. Em teoria, existia uma vida antes da prisão. Na prática, essas informações surgem, acenam de longe e desaparecem como personagens que descobriram que a série não renovou contrato.

Britt Lower, como Rachel, é quem ajuda a dar mais pulso ao negócio. Ela traz uma inteligência inquieta, um sarcasmo discreto e uma energia de pessoa que claramente deveria estar fazendo terapia em vez de investigar crimes internacionais com o ex-cunhado fugitivo. A personagem tem um passado profissional que poderia render mais do que rende, mas Lower encontra pequenas brechas para fazer Rachel parecer uma pessoa de verdade em meio a um roteiro que às vezes trata todo mundo como GPS humano: “vire à esquerda para a próxima pista; mantenha-se à direita para a próxima revelação”.

A melhor notícia é que o elenco segura a onda. Chi McBride e Logan Browning formam uma dupla de agentes federais que parece ter escapado de uma série policial muito mais consistente. Eles têm química, timing e uma relação de trabalho que funciona sem precisar de dez flashbacks explicando por que se respeitam. Em alguns momentos, você até começa a desejar que Eu Vou Te Encontrar abandone David no meio do caminho e vire um procedural semanal com os dois resolvendo casos estranhos em Boston. Seria uma ideia muito mais honesta — e provavelmente mais divertida.

Milo Ventimiglia também entra como aquele ex que ainda está emocionalmente disponível demais para uma história tão caótica. Ele tem carisma, claro, e faz o possível com um personagem que existe em boa parte para olhar para Rachel com preocupação e estar convenientemente perto quando a trama precisa de dinheiro, acesso ou apoio. É o tipo de sujeito que, em thriller de streaming, nunca parece ter agenda própria. Ninguém trabalha. Ninguém dorme. Todo mundo só fica de prontidão esperando uma ligação que diga: “encontrei algo”.

E esse é o problema central de Eu Vou Te Encontrar: ela não tem medo de repetir. Repete nomes, repete pistas, repete suspeitas, repete explicações, repete conversas que já foram explicadas numa cena anterior. Parece que a série foi escrita para um espectador que saiu para pegar água e voltou exatamente no momento em que alguém precisava repetir o caso inteiro em voz alta. Harlan Coben já tem uma fórmula conhecida, e aqui ela vem servida em tamanho família: trauma do passado, criança desaparecida, conspiração de gente rica, segredo de família, criminoso de Boston e uma viagem para a Suíça porque, aparentemente, nenhum mistério internacional pode se resolver sem alguém dizer “temos uma conexão na Europa”.

O mais frustrante é que há material para algo mais enxuto e nervoso. A investigação poderia caber em menos episódios. As pistas poderiam avançar sem que três núcleos diferentes descobrissem a mesma coisa em momentos alternados. Algumas personagens secundárias poderiam existir com mais clareza, em vez de simplesmente desaparecerem quando deixam de ser úteis. E a série seria melhor se confiasse que o público consegue lembrar de um nome por mais de quinze minutos.

Mas, apesar da roda girando em falso, Eu Vou Te Encontrar ainda prende. Porque o mistério é bem dosado o suficiente para você querer saber qual é a próxima mentira. Porque Worthington tem a energia certa para um pai desesperado. Porque Lower encontra humanidade num papel que poderia ser apenas ferramenta narrativa. Porque McBride e Browning tornam qualquer cena de investigação mais interessante do que deveria ser. E porque, no fundo, thriller ruim é o que você abandona; thriller mediano com gancho bom é o que você termina reclamando.

O desfecho, como costuma acontecer nesse tipo de série, resolve tudo sem exatamente resistir a uma auditoria de lógica. É aquele final que funciona melhor se você não ficar fazendo perguntas demais. E tudo bem: Eu Vou Te Encontrar não quer ser um quebra-cabeça perfeito. Quer ser um labirinto de corredores iluminados, com placas apontando para suspeitos diferentes e um narrador invisível dizendo “não desligue ainda”.

No fim, é uma produção claramente feita para devorar em maratona, discutir no grupo e esquecer duas semanas depois. Não é Mare of Easttown. Não é Prisoners. Não é nem a melhor adaptação possível de Harlan Coben. Mas tem elenco, ritmo suficiente e reviravolta em quantidade industrial para cumprir sua função.

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