Inovação transforma rotina de propriedade leiteira em Bocaiuva
Reconhecida com certificação de “Fazenda Ouro”, a propriedade reúne tecnologia, manejo sustentável e uma história construída com planejamento e cooperação
Antes mesmo de o sol nascer, o dia já começou para Dilson Geraldo da Silva. Aos 53 anos, ele aprendeu cedo que, no campo, o tempo tem outra medida. É contado pela chegada da chuva, pelo crescimento da pastagem, pelo nascimento dos animais e pelas decisões tomadas entre uma safra e outra.
Na propriedade de 128 hectares onde vive e trabalha, na zona rural de Bocaiuva, a pecuária leiteira atravessa gerações. Foi ali que Dilson aprendeu os primeiros ensinamentos ao lado do pai. Em 1999, quando precisou assumir a fazenda após sua morte, herdou uma responsabilidade que, ao longo dos anos, transformou em um projeto de evolução contínua.
Disposto a fazer a atividade crescer, Dilson passou a buscar alternativas que permitissem aumentar a produtividade sem perder a essência do trabalho construído pela família. A primeira grande mudança veio por meio de uma parceria com uma indústria de laticínios da região, que possibilitou a aquisição de um touro da raça holandesa para o início de um trabalho de melhoramento genético.
A busca por um rebanho cada vez mais produtivo não parou no primeiro cruzamento. Com o passar dos anos, a fazenda incorporou novas técnicas de reprodução, acompanhando a evolução da pecuária leiteira.
“Depois desse touro, passei a trabalhar com a inseminação artificial. Agora demos mais um passo e estamos na fase da fertilização in vitro. Os embriões vêm de fazendas que estão em um estágio mais avançado de seleção genética. Isso permite melhorar continuamente a qualidade do nosso rebanho e aumentar o potencial produtivo dos animais”, explica Dilson.
Mas entre a primeira ordenha manual e os embriões de alta genética existe uma longa estrada de aprendizado.
Quando assumiu de vez a fazenda, há 27 anos, o leite era retirado manualmente, em um trabalho que exigia tempo, força e dedicação. Cada etapa da produção dependia, quase exclusivamente, das mãos de quem estava ali. À medida que a produção crescia, surgiam também novos desafios. Era preciso investir em estrutura para acompanhar o ritmo da atividade.
A primeira conquista foi a ordenhadeira mecânica. Depois vieram outras. Hoje, a propriedade conta com quatro conjuntos de ordenhas, que tornaram o processo mais eficiente e permitiram acompanhar o crescimento do rebanho sem abrir mão da qualidade.
Dilson ainda se lembra do primeiro resfriador de leite instalado na fazenda. Na época, o equipamento lembrava um grande reservatório cheio de água, onde as leiteiras eram mergulhadas para reduzir a temperatura do leite logo após a ordenha.
Era o que havia de mais moderno naquele momento, mas com o passar dos anos, novas tecnologias também chegaram a essa etapa do processo. O antigo sistema deu lugar ao tanque de expansão, utilizado atualmente para armazenar toda a produção até a coleta diária realizada pela indústria de laticínios.
Hoje, cerca de 700 litros de leite deixam a fazenda todas as manhãs em direção a Montes Claros. Mas, para Dilson, cada litro produzido carrega um pouco da história construída ao longo dessas últimas décadas. “Cada etapa foi acontecendo no seu tempo. A gente nunca deu um passo maior do que podia. Primeiro melhorava uma coisa, depois outra. Foi assim que a fazenda foi crescendo”, pontua.
O produtor divide a condução da atividade com o sócio e afilhado, Flávio Silva, além de contar com quatro colaboradores responsáveis pelas duas ordenhas diárias e pelas demais atividades da fazenda. Ao seu lado, está também a esposa, Adriana, companheira há 24 anos e presença constante na construção dessa história.
DESAFIOS E RECONHECIMENTO
No Norte de Minas, produzir leite significa aprender a conviver com a seca, que é um desafio permanente na região. Na Fazenda São Pedro, as vacas são criadas em sistema de semiconfinamento. Durante o período chuvoso, aproveitam as áreas de pastagem. Mas, quando a estiagem chega, é preciso recorrer ao planejamento feito meses antes.
Silagem, cana e áreas irrigadas garantem a alimentação do rebanho durante todo o ano e evitam oscilações na produção. “Aqui não dá para depender só do pasto. Se faltar alimento, cai a produção. Então a gente trabalha para produzir silagem e agora também investir na irrigação. Isso dá segurança para continuar produzindo”, conta.
Nos últimos anos, a propriedade implantou quatro hectares irrigados destinados à produção de alimento para o rebanho. O investimento representa mais um passo dentro de uma estratégia de crescimento gradual, que projeta dobrar a produção nos próximos três anos.
E, para Dilson, esse crescimento não passa necessariamente por aumentar o número de animais. O objetivo é produzir mais com um rebanho cada vez mais eficiente, resultado direto dos investimentos contínuos em genética, manejo e gestão.
Foi justamente a adoção de boas práticas de manejo, aliada aos investimentos constantes em genética, qualidade do leite e sustentabilidade, que levou a propriedade a conquistar a certificação Fazenda Ouro, concedida pela indústria responsável pela compra do leite.
O reconhecimento é resultado de uma série de critérios técnicos que avaliam desde a qualidade do leite até as condições de criação dos animais, o manejo da propriedade e a adoção de práticas voltadas para uma produção cada vez mais eficiente e sustentável.
Entre os diferenciais da fazenda está um cuidado que Dilson faz questão de preservar. As vacas não recebem ocitocina nem qualquer outro medicamento para induzir a descida do leite durante a ordenha. O estímulo acontece de forma natural, com a presença dos próprios bezerros, respeitando o comportamento fisiológico dos animais.
“Quando você trabalha pensando em fazer as coisas do jeito certo, o resultado acaba aparecendo. A certificação é importante porque mostra que estamos produzindo leite com qualidade, mas ela também aumenta nossa responsabilidade de continuar evoluindo“, analisa.
O reconhecimento não mudou a rotina da Fazenda São Pedro. Dia após dia, o despertador toca no mesmo horário, as vacas seguem para a ordenha e o trabalho recomeça antes mesmo de o sol aparecer. A diferença é que, por trás de cada etapa da produção, existe uma história construída ao longo de muitos anos, marcada por decisões que exigiram planejamento, confiança e coragem para investir.
PARCEIRO DE LONGA DATA
Nenhuma das transformações vividas pela propriedade aconteceu por acaso. A ordenha mecanizada, a irrigação, o melhoramento genético e a estrutura que hoje fazem parte da fazenda foram implantados aos poucos, sempre respeitando o ritmo do negócio e a capacidade de cada novo investimento.
Foi nesse caminho que o Sicoob Credinor se tornou parceiro da Fazenda São Pedro. Há 25 anos, a cooperativa participa do financiamento de diferentes etapas da produção, desde a formação das lavouras e da irrigação até investimentos em animais e na modernização da propriedade.
Em busca de aperfeiçoar a gestão, Dilson participou do Norte Empreendedor, programa desenvolvido pelo Sicoob Credinor em parceria com o Sebrae Minas. A iniciativa oferece consultorias especializadas aos cooperados, com foco em gestão, planejamento e desenvolvimento dos negócios, para que possam compreender melhor os custos, identificar oportunidades e tomar decisões mais estratégicas.
Foi durante esse processo que a experiência adquirida ao longo de décadas no campo passou a caminhar lado a lado com uma visão mais técnica da atividade. O produtor, acostumado a tomar decisões com base na prática, passou a enxergar a fazenda também pelos números.
“As consultorias ajudaram a gente a entender melhor os custos, organizar o planejamento e enxergar onde estavam as oportunidades de melhorar. Hoje conseguimos tomar decisões com muito mais segurança e pensar no futuro da fazenda de forma mais estruturada”, afirma.
A história da Fazenda São Pedro também é acompanhada de perto por quem viu essa evolução acontecer ao longo dos anos. Para a gerente da agência do Sicoob Credinor em Bocaiuva, Karine Kraysller, o crescimento da propriedade é resultado de um produtor que nunca deixou de aprender.
“Dilson é um cooperado que entende que crescer exige planejamento, disciplina e disposição para evoluir continuamente. Ao longo dos anos, vimos uma propriedade que foi incorporando tecnologia, investindo em gestão e aperfeiçoando cada etapa da produção sem perder a essência do trabalho no campo”, enaltece.
Esta reportagem chega ao fim. A rotina da Fazenda São Pedro, não. Daqui a algumas horas, o curral voltará a ganhar vida e mais uma ordenha começará. Amanhã será mais um dia de trabalho, assim como foi ontem e como será depois de amanhã. E é assim, um dia de cada vez, que essa história continuará sendo escrita.
